• LEODIAS

Quando a sua família o trata como um incapaz...

Tudo na vida tem um limite. Até o amor dos nossos pais. Me dói muito escrever esse texto. Ele está sendo escrito sob muitas lágrimas, em plena Páscoa. Eu nunca fui motivo de orgulho dos meus pais. Meu pai tinha vergonha quando eu ia aos quartéis que ele comandava. Eu era “frágil” demais para ser o filho do comandante. Minha família sempre deixou claro que minha irmã sempre foi o orgulho, a mais bonita... Eu? Com um óculos de 10 graus de miopia, andando curvado e fala baixa.. Eu era o esforçado. E assim foi. Só que eu virei o jogo. Eu sempre quis ser o melhor, o primeiro. E fui. Sei que mudei a história do jornalismo de celebridades no Brasil (ah, ser jornalista sempre envergonhou meu pai, que odiava jornalistas). Meu nome já está escrito. Eu não preciso provar mais nada pra ninguém. Quer dizer, pra quase ninguém. Minha família me considera como um incapaz de gerar minha própria vida. Sei que muito disso deve-se ao meu comodismo, admito. Mas eles me acham inábil. Mal sabem eles que isso só é mais uma dependência que eles criaram na minha vida. Eu não sou apenas um dependente químico. Eu não sou capaz de cuidar das minhas finanças. Neste domingo, tive uma desagradável surpresa. Eu não tenho mais conta corrente. Cartão de crédito? Esquece. Sou dependente do meu ex. Ele viaja o mundo com as milhas que ele ganha com as minhas inúmeras compras. Gasto muito? Gasto, mas o dinheiro é meu. Trabalho como poucos. 24h por dia. Abdiquei do Leonardo Antonio. Hoje praticamente só existe o Leo Dias, que dá os maiores furos de reportagem do Brasil. Mas não posso ter acesso ao meu dinheiro. Trabalho em quatro empresas. QUATRO. Ao todo, ganho valores que jamais imaginei ganhar um dia, dentro dos 6 dígitos. Mas meu pai não me acha capaz de administrar meu dinheiro. Alias, nem eu sei se sou capaz. Mas eles nem me deram a capacidade de errar, errar, errar até acertar, entende? Permanece o Leonardo frágil da infância. Essa semana foi o cúmulo. Meu almoço foi arroz integral (que eu odeio) com ovo. Só. Por que? Vamos lá: minha sobrinha estuda nutrição e todos viraram adeptos do odiável arroz integral. E a falta de carne é explicada pelo fato do meu pai ser deveras católico e não comer carne durante toda a semana santa. Mas e o que eu tenho a ver com isso? Não importa, eu não tenho direito a comer carne por causa da fé dos outros. Hoje eu dei meu grito de independência. Chega! Posso me afundar nas drogas mas eu preciso assumir o controle da minha vida. A minha família precisa parar de me tratar como frágil, por que isso, meu amor, com certeza eu não sou. Sei que sou corajoso, audacioso e transgressor. Mas para uma família com base militar essas palavras são negativas. Ninguém questiona as regras na minha família. Eu questiono tudo. Eu era obrigado a ler a Bíblia diariamente, querendo ou não. Nas viagens de carro, o rádio era desligado. Íamos rezando o terço. Mesmo que eu, tão pequeno, não entendesse aquelas palavras das orações. Mas a ordem era rezar. E ninguém questionava o porquê. Quando eu falei que estudaria Comunicação, minha família riu de mim. Como assim, ele mal fala .... Mas eu acabei passando a ser conhecido em todo país. Como pode? Morava no Méier. Você já passou pelo Méier ? É um calor INFERNAL. Mas nós não podíamos ter ventilador. Eu perguntava o porquê. “Dar dor nos ossos”. Ué, mas nos meus ossos não dói. Soa engraçado, mas não é. Eu vivia uma ditadura. Banho quente? Nunca tive. “Faz mal para saúde” Logo que entrei na faculdade comecei a trabalhar. O dinheiro traria a minha liberdade. Mas ela demorou muito. Não podia sair à noite. “É perigoso”. Para um ser com baixíssima auto estima, o melhor lugar era mesmo a igreja. Fui virgem até os 21 anos. Nunca beijei uma mulher na vida. Nunca me achei atraente a tal ponto. A primeira vez que fui “desejado” foi quando pisei pela primeira vez em uma boate gay. Um primo contou para minha mãe que eu era gay. Leonardo decepcionava mais uma vez a família. Enquanto isso, trabalhava como pesquisador do DataFolha. Trabalhei nas primeiras eleições democráticas do país. Mandei carta para diversas rádios portuguesas, mentindo ser jornalista formado, e consegui trabalhar por 10 anos na Radio Difusora Portuguesa. Cobri a visita do Papa João Paulo II a Havana. Assisti à missa do Papa a poucos metros de Fidel. Nada disso parecia relevante o suficiente. Nunca foi. Quando virei fofoqueiro, mais uma decepção. Você acha mesmo que meu pai falava para os amigos: “meu filho é o maior fofoqueiro do país”? Este texto não representa dor. Representa apenas avaliação. Não há errados nem certos. O amor deles por mim prevalece. Eu sei que, apesar de eu não ser nada daquilo que meu pai sonhou em um filho... tenho certeza que ele me ama. E isso já vale. Mas eu preciso andar sozinho. Preciso errar sozinho. Preciso cair. Preciso levantar. MAS O MAIS IMPORTANTE, PRECISO SABER QUE EU POSSO SIM SER INDEPENDENTE.




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