• LEODIAS

Amy, Cazuza... e as mais cruéis maneiras de se atacar um viciado

Eu sou uma pessoa “pública” e muita gente se incomoda com as minhas publicações. Isso significa, obviamente, que, vez por outra, eu sou muito atacado nas redes sociais. Mas os ataques mudaram. Diminuíram muito mas mudaram o teor. Antes de eu me assumir publicamente como um dependente químico, era chamado de quase tudo: de fofoqueiro a mentiroso, passando por viado e lixo humano. Tudo o que você imaginar de ruim. Agora, não. O ataque é única e exclusivamente sobre a minha condição de adicto. É óbvio que isso me entristece, mas sabe que antes de eu assumir era bem pior. A opinião do outro me abalava muito. Quando um famoso me atacava publicamente, eu desmoronava. Mas quando eu falei publicamente sobre o meu vício, eu desarmei quem queria me atacar. Não fazia sentido a pessoa falar sobre algo que eu mesmo já expus. Mas ter falado abertamente tem um preço alto. E eu pago centavo por centavo. Eu, por exemplo, hoje raramente aceito dar entrevista em que a temática seja a droga. Acho que eu sou bem mais interessante do que esse assunto. E há um sério fator que faz com que as TVs adorem tratar desse assunto comigo: eu choro fácil. E a televisão adora um choro. Por isso, também decidi não ir mais a programas de TV que abordem esse tema. Outro dia estava lendo sobre a história do Freud, o gênio da psicanálise. Apesar de sua genialidade, ele chegou a defender o uso da cocaína, mas nunca falou abertamente sobre seu vício, talvez o brilhantismo dele estivesse justamente aí. Minha dica é: preserve-se. Outro dia soube de uma atriz da Globo que deu entrevista pro UOL admitindo ser dependente. Horas depois de dar a entrevista, ela se arrependeu e pediu para não exibirem tal trecho. Uma pena. Ela ajudaria muita gente. Mas poderia (e teria) prejuízos. E, lógicos, ainda ouviria: “mas tão bonita, tão talentosa, porque faz isso?” Por falar em artistas, eu tenho uma clara identificação com a obra musical de alguns dependentes químicos. Cássia Eller me representava muito com a sua atitude raivosa. E Cazuza? “Exagerado” é a canção que mais traduz o viciado. Por conta da droga, nossa vida é cheia de extremos. Amor da minha vida Daqui até a eternidade Nossos destinos Foram traçados na maternidade A droga é a responsável por essa montanha russa de emoções, que é angustiante. Principalmente quando tudo passa. Sem a droga, a gente reage melhor a tudo, das decepções às conquistas. E o que falar de Amy? Suas canções representaram um importante relacionamento da minha vida, talvez o único relevante. E foi a droga a razão da separação. Foi meu ex que contou aos meus pais que estava mega tomado pela cocaína. E foi nessa época que Amy estourava mundialmente. Então, imagine... “Rehab” virou minha música: “Tentaram me mandar pra reabilitação. Mas eu disse: Não, não, não.” E isso de fato aconteceu. Mas a música de Amy que mais me define é “You Konw I’m no good” (“Você sabe que eu não sou bonzinho”). Há um trecho da música que ela diz que “traiu a si mesma. Como se eu soubesse o que aconteceria”. Para mim, toda vez que recaímos, a gente trai a si próprio. E, lógico, o trecho: “I tould you I was trouble”. Todo viciado é uma encrenca ambulante,. “Back to black”, assim como “Exagerado” mostra o descontrole das emoções de todo viciado. A música fala: “Você volta para sua ex, que eu volto pro meu luto”.Luto? Menos, Amy. E “I died a hundred times”: morrer cem vezes. Esse é o limite do limite do exagero. Todos esses citados (esqueci do incrível Renato Russo) são gênios mas suas genialidades nada tinham a ver com a droga, não acredite nessa balela. A sensação que fica, em todos, é que, como o mundo estaria melhor se eles não tivessem perdido a luta contra a droga ou a Aids. Como eles fazem falta. Mas felizmente suas obras são eternas. Amy, especificamente, traduzia muito o viciado: suas músicas são tristes, traduzem o dia após a perda dos limites. Amy mostrou que nem tudo é felicidade e o amor, muitas vezes, dá errado. Quando eu soube que ela tinha morrido, diminuiu um pouco a esperança na minha recuperação. Ela mudou a minha vida, pro bem e pro mal.




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