• LEODIAS

“A sua profissão é insalubre”

Fazer terapia (ou ser aconselhado) com alguém que não tem a menor noção do seu universo e da sua profissão é muito importante para um dependente químico. Ter a visão de quem está totalmente de fora e alheio minimiza os problemas que, para nós, parece o fim do mundo.

Vamos ao meu caso: Dra Ângela, minha terapeuta, não tinha a menor ideia de quem eu era quando começamos as consultas. E nem eu era tão conhecido. Não havia nela nenhuma informação externa sobre mim. Quando eu contava os problemas profissionais que acabavam afetando o meu bem estar, ela deixava tudo do exato tamanho que o problema tinha. Mas ela ela começou a perceber que os problemas profissionais eram recorrentes e causadores da procura pela droga. A cada processo, mais uma recaída braba. E as recaídas sempre estavam muito ligadas ao meu dia-a-dia na redação.

Neste momento, Dra Ângela me solta a seguinte frase: “A sua profissão é insalubre”. Isso me deixou paralisado. E olha que ela falou isso bem antes do “boom” que eu tive em termos de exposição no Fofocalizando.

Todos os famosos, quando queriam me atacar, falavam da minha dependência. Isso me afetava demais. Felizmente, isso não afetou a minha credibilidade. Acho que isso deve-se à minha enorme dedicação ao meu trabalho.

Mas eu não tinha (e não sei se ainda tenho) a real noção do meu tamanho. Sabe o que me deixou em choque? Final de 2017, o Google publicou uma lista dos nomes mais buscados na internet naquele ano e o meu nome estava em décimo. Achei algo surreal. Dois anos depois, o mesmo Google me procura para uma reunião e me oferece toda a estrutura para criar um canal meu no YouTube. Recusei. Mais exposição, não!

Eu precisava de menos exposição. Minha vida estava mais do que um livro aberto, estava escancarado. De repente, até a Dra Ângela me diz que “outro dia li uma matéria sobre você”. Ah, não.... o meu último refúgio estava acabando. Eu estava exageradamente exposto.

Preste atenção como eu estava exposto: eu era único dependente químico assumido em todo o país que estava diariamente, ao vivo, de segunda a sexta, na TV brasileira. No caso, na segunda maior emissora de TV do país.

Você acha que isso ajuda o tratamento de alguém? Claro que não! Dra Ângela me disse varias vezes que a exposição estava piorando a minha vida. E ela estava certíssima.

Eu era julgado, analisado , diariamente, por milhões de pessoas. Não há ser humano que aguente. Admito que algumas vezes eu não estava em condições de estar ali. E aí, meu amor, a internet vinha abaixo. Muitas críticas e, lógico, muita gente rindo da minha cara. Fazendo piada com o meu estado deplorável. O que acontecia? Eu me afundava mais e mais.

Bom, qual era a solução para melhorar a minha saúde mental. Abandonar tudo ? Pode ser, mas eu vou viver do quê? Então, essa saída foi descartada.

Falar menos sobre sua vida pessoal ? Boa! Vamos tentar fechar a boca, fazer menos stories, contar menos sobre mim mesmo. No meu caso, é um grande desafio.

Mas ao final de muitas sessões discutindo a minha profissão, eu e Dra Ângela chegamos a uma conclusão: eu precisava urgentemente separar o Leo Dias do Leonardo Antônio. E é isso que eu tenho tentado fazer nos últimos tempos. LeoDias é um personagem: polêmico, controverso, verdadeiro.... mas ele não pode abalar a sobriedade do Leonardo Antônio.

O que eu fiz, então: me cerquei de algumas poucas pessoas que só querem saber da pessoa física, não da jurídica. Quando eu saio com elas, quase não falo da minha profissão e aquele universo não pode ir parar nas minhas redes socais.

Um dos meus refúgios é a casa dos meus pais. Tanto meu pai, quanto a minha mãe não têm acesso à internet. Eles só lêem jornal (em papel) e vêem televisão. Isso é uma bênção.

O que eu também fiz foi mudar o meu estilo de reportagem. Fiquei mais light, menos ácido. Cada vez mais eu procuro me envolver menos em confusão. Nos últimos anos, eu já deixei de publicar inúmeras histórias que renderiam muitos cliques, mas que afetariam demais a minha saúde mental (e de outras pessoas também). Esse ano, acho que deixei de publicar umas 3 histórias que causariam o maior rebuliço. Mas afetariam demais a mim e algumas famílias. Então, deixemos quieto.

Essa mudança no meu agir me ajudou muito. Eu não sou mais o cara que era odiado, temido... que causa a discórdia, que joga uma pessoa contra outra.

Sei que o meu caso e a minha história são muito específicos, sei que eu precisei expor as minhas mazelas para tirar um peso enorme das costas, para desarmar quem queria me atacar e para que a minha credibilidade aumentasse. Mas o que essa minha experiência de vida pode trazer para a sua vida, caro leitor ?

Primeiro, se a sua profissão estiver afetando demais a sua saúde mental, tente, primeiro mudar de profissão. Se não der, a dica é separar bem a pessoa física da pessoa jurídica. É o que Lulu já disse: “Não leve o personagem para a cama, isso pode acabar sendo fatal”.

Apesar de todo o mal que essa profissão que eu escolhi pode ter causado à minha vida pessoal, tenha certeza que trabalhar é fundamental para o adicto. Muitos dependentes químicos acabam perdendo seus empregos por conta do vício. É isso só piora a situação. Trabalhe, em qualquer coisa. Mesmo que seja trabalho voluntário. Sinta-se útil. Ocupe seu tempo. O ócio, o tempo vazio é um caminho aberto para a droga. Essa é a principal dica de hoje.


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